Cotoveladas

terça-feira, setembro 06, 2005

Miura

Quando li o texto da Snail sobre Barrancos, lembrei-me imediatamente de Miura.

Há alguns anos, estive com a Snail e com a Pantera cor-de-rosa em Barrancos; bebi “Tinto de Verano” e comi carne com tomate, mas acho que não entrei no espírito barranquenho e não fui à tourada. A tourada é um espectáculo ao qual eu nunca assisti, a não ser, por breves instantes, antes de mudar o canal, na televisão. Não entendo como é que um touro acaba, tal como Miura “condenado a divertir a multidão”.

“Miura” pertence a Bichos de Miguel Torga e é um conto em que o narrador narra de acordo com o que Miura (um touro que morre na arena) vê, pensa e sente.

Miura é forçado a entrar na arena. “A tremer como varas verdes, de cólera e de angústia, olhou à volta. Um tapume redondo e, do lado de lá, gente, gente, sem acabar. Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer.
Gritos da multidão. (…)
… o manequim de lantejoulas caminhava (…), bateu o pé direito no chão e gritou:
- Eh! Boi! Eh! Toiro!
A multidão dava palmas. (…)
Infelizmente, o fantasma, que aparecia e desaparecia no mesmo instante, escondera-se covardemente de novo por detrás da mancha atordoadora. Os cornos ávidos, angustiados, deram em cor. Mais palmas ao dançarino.
[Miura] parou. Assim nada o poderia salvar. À suprema humilhação de estar ali, juntava-se o escárnio de andar a marrar em sombras. (…)
O espectro doirado lá estava sempre. Pequenino, com ar de troça, …(…)
Sem lhe dar tempo, com quanta alma pôde,
[Miura] lançou-se-lhe à figura, disposto a tudo. Não trouxesse ele o pano mágico, e veríamos!
Não trazia. E, por isso, quando se encontraram e o outro lhe pregou no cachaço, fundas, dolorosas, as duas farpas que erguia nas mãos, tinha-lhe o corno direito enterrado na fundura da barriga mole.
Gritos e relâmpagos escarlates de todos os lados.
Passada a bruma que se lhe fez nos olhos, relanceou a vista pela plateia. Então?!
Como não recebeu qualquer resposta, desceu solitário à consciência do seu martírio. Lá levavam o moribundo em braços, e lá saltava na arena outro farsante doirado. (…)
Avançou de novo. Os olhos já lhe doíam e a cabeça já lhe andava à roda.
Humilhado, com o sangue a ferver nas veias, escarvou a areia mais uma vez, urinou e roncou, num sofrimento sem limites. (…)
Parou. Mas não acabaria aquele martírio? Não haveria remédio para semelhante mortificação?
Num último esforço, avançou quatro vezes. Nada. Apenas palmas ao actor.
Quando? Quando chegaria o fim de semelhante tormento?
Subitamente, o adversário estendeu-lhe diante dos olhos congestionados o brilho frio dum estoque.
Quê?! Pois poderia morrer ali, no próprio sítio da sua humilhação?! Os homens tinham dessas generosidades?!
Calada, a lâmina oferecia-se inteira.
Calmamente, num domínio perfeito de si, Miura fitou-a bem. Depois, numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele
gume."

Não é só Barrancos, com os touros de morte, que eu condeno, mas sim a tourada em si, a tourada como espectáculo (e que espectáculo cruel!), o sofrimento dos animais, apenas e só, para divertir multidões.
A tourada é uma tradição cultural com raízes profundas, mas a Humanidade evolui e, se calhar, há tradições que poderiam dar lugar a outras, talvez até bem mais evoluídas.

Foi um alívio para Miura e um alívio para mim o final deste conto.

Afinal os homens têm destas generosidades…

Cotovia

9 Comments:

  • Oh, Cotovia (que confusão me faz tratar pessoas que conheço há vidas por pseudónimos, nicknames, whatever) também eu já provei os encantos do tinto de verano. Já para não falar de um despertar forçado às 6 da matina com um grupo de esfomeados a berrar:"Batatas com bacalau!!!"
    Se não fosse a tourada, diria que é das festas populares mais animadas do país.

    Beijinhos especiais para a snail, adepta convicta deste acontecimento e patrocinadora da minha estadia em barrancos.

    By Blogger Carla Motah, at 11:59 da manhã  

  • Querida Cotovia, tb eu li o conto de Torga em Os Bichos há muitos anos.Impossível não ficar do lado do animais em tais histórias. Ao personificar os animais e dar-lhes pensamento como nós, eles "são" automaticamente um de nós.
    Não penso que devam ser encarados como pessoas mas como seres vivos diferentes; mas que temos, sim, de respeitar do mesmo modo que a todos os humanos e a todos os outros seres vivos. Não somos mais importantes que todos os outros!
    Bjs.
    E tb à Carla pelas lembranças da "fiesta"!
    Snail

    By Blogger nós, at 1:03 da tarde  

  • Cotovia, conhecendo-te como te conheço, posso imaginar o teu alívio ao terminares a leitura deste conto...

    By Anonymous Anónimo, at 6:39 da tarde  

  • oh cotovia, o meu nome é miura e so passei aqui para t mandar pro caralhinho!!!! jocas doces!!!

    By Anonymous Anónimo, at 3:52 da manhã  

  • vcs nao imaginam o MEU alivio ao terminar de ler este conto... que horror.
    Eu ja entrei numa tourada, contra minha vontade... chorei o "espetaculo" inteiro e com os olhos fechados.... lembro-me da covardia que acontece antes do toureiro entrar na arena... quando varios cavaleiros enfiam espadas no touro, sentados em cavalos protegidos e com os olhos vedados... da cena do touro sendo arrastado morto no fim... Foi uma das piores experiencias da minha vida.
    Assim q acabou, ( me disseram q eu nao podia sair no meio, q deveria esperar a primeira tourada acabar e ai poderia sair, no intervalo.. pq depois teriam outras) eu levantei e sai chorando... e todo mundo me olhou de uma forma muito estranha, desde q comecei a chorar ate esse momento, q sai chorando... acho que ninguem entendeu a minha dor pelo pobre animal, que nem quando vence a INJUSTA batalha, tem o merito de ficar em paz.
    Nao sei, eu simplesmente nao entendo como isso ainda acontece...

    By Anonymous Anónimo, at 7:36 da manhã  

  • és mui gay

    By Anonymous Anónimo, at 4:17 da tarde  

  • és mui gay

    By Anonymous Anónimo, at 4:17 da tarde  

  • deves ser bicha!!!!!!!!!!!!!!

    By Anonymous Anónimo, at 4:18 da tarde  

  • À Cotovia falta uma galada na cona bem dada e profunda.

    By Anonymous Piça Fria, at 4:04 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home